Individualidade da criança

A civilização, por muitos séculos, permaneceu refém de um pensamento hermético, imposto por instituições ou grupos de dominação, forçando-a a manter sua vivência dentro de conceitos menores, o que, até então, era aceito naturalmente. Nos dizeres de KANT, “A preguiça e a covardia” faziam com que o ser humano se paralisasse nesta posição e não usasse seu raciocínio para questionar esse estilo de vida, deixando de se utilizar de seu próprio conhecimento crítico.

Para entender as modificações ocorridas com o indivíduo na antiguidade e este na modernidade, é fundamental debruçar-se sobre o funcionamento da sociedade antiga e o da sociedade moderna.

Na época antiga, o indivíduo era obrigado a obedecer regras e normas que a ele e a todos eram impostas, sem qualquer possibilidade de contestar sua legitimidade ou mesmo delas discordar, ainda que somente no campo das ideias, dado que tais normas possuíam origem divina, mesmo que idealizadas e concretizadas por outros seres humanos, mas que ocupavam postos de comando ou de poder, o que lhes possibilitava impor suas vontades e caprichos, como se fossem representantes de seres divinos na Terra.

Dada essa característica divina das normas – ainda que idealizadas por outros seres humanos – impunham-se tais normas por meio do medo que dominava a quase totalidade das pessoas e, aos que se atreviam a contestar tais normas, a coação física, normalmente acarretando a morte de quem a ela eram submetidos, mantendo-se, assim, toda a coletividade sob o jugo dos grupos dominantes.

Com a era das luzes, com o Iluminismo, com a Revolução Francesa, com os movimentos de independência das colônias europeias, tanto na América quanto na África e na Oceania, de certa forma, o poder que esses grupos dominantes detinham acabou esmaecido, libertando-se a maioria dos povos dessas normas dogmáticas, de caráter divino, inquestionáveis, passando a se buscar mais a individualidade do que a coletividade.

Tanto é assim que questões individuais, anteriormente totalmente desconsideradas nas idades das trevas, passaram a ser relevantes e tratadas como moléstias passíveis, inclusive, de hospitalização para cura do indivíduo.

Muito embora até os dias atuais ainda se verifique certa resistência a doenças e problemas individuais, tal como ocorre com a depressão, transtornos de ansiedade, pânico e outras moléstias, é certo que nossa civilização avançou muito no reconhecimento desses problemas e, em consequência, também no que se refere ao respeito à individualidade de cada pessoa, tratando cada um especificamente, ainda que esteja inserido em grupo social.

Faz-se importante, também, obtemperar sobre os pontos positivos e negativos do individualismo, que hoje tornou-se exacerbado em nossa sociedade, à medida que por trás dessa “individualidade” pode ocorrer, na verdade, o egoísmo, a arrogância e a falta de coletivismo.

 

Como respeitar a individualidade das crianças – Quando poderemos deixar as crianças tomarem suas próprias decisões

   Individualidade, para o ser humano, significa reconhecer sua originalidade, particularidade e peculiaridade. Reconhecer e respeitar a individualidade nos nossos filhos, p. ex., implica em uma das principais tarefas na educação, em valorizar as preferências das crianças, acreditarem nas suas potencialidades e confiar na sua capacidade para que melhorem as habilidades que, logo mais, as tornarão competentes na sociedade.

Note-se, aqui, que o respeito à individualidade das crianças tem como finalidade futura a inserção delas na vida em sociedade, com o objetivo de que se tornem adultos mais conscientes e predispostos a propiciar melhores condições de convivência no grupo social do qual irão participar.

Assim, apostar no ensino baseado no respeito da criança, promovendo autonomia, iniciativa, capacidade para a tomada de decisões, desenvolvimento da vontade e esforço, respeito pelos demais e por si mesmo, acarretará resultados positivos, dado que o ser humano, ao atingir a idade adulta, poderá interagir com os demais indivíduos do grupo social com mais segurança, com mais autonomia, agregando valores positivos à coletividade.

Nesse sentido, o papel dos pais é o de ensinar aos seus filhos como fazerem as coisas, confiando em sua capacidade e no seu modo particular de realizá-las, supervisionando para que progressivamente alcancem novos desafios e pequenos objetivos.

Devem os pais guiar os filhos, corrigindo-os quando necessário, bem como incentivando-os na execução de novos objetivos. Deste modo, a criança vai resolvendo etapas por si mesma, com o apoio do adulto que lhe transmite segurança e tranquilidade no processo.

Assim, os pais não devem resolver as tarefas para os seus filhos. Devem, sim, guiar o processo, lembrando que os filhos estão, ainda, aprendendo a solucionar a questão, dentro de sua capacidade e conhecimento, podendo, sim, ocorrer erros e imperfeições.

Com esses erros e imperfeições, a criança desenvolve a capacidade de superação para enfrentar situações problemáticas no futuro.

Se os pais sempre atuam com pressa, exigindo que seus filhos sigam o ritmo deles e pretendem que façam as coisas tal como adultos, acabarão por resolver as situações da própria maneira ou recriminarão as atitudes das crianças. Se os filhos não forem ensinados a tomarem decisões por si mesmos para se auto observarem e conhecerem seus próprios interesses acabarão necessitando de pessoas de referência que decidam por eles.

Se os pais não enaltecerem quando os filhos alcançarem pequenas conquistas, somente criticando-os quando cometerem pequenos erros, prejudicarão seu próprio autoconceito e valorização de suas possibilidades. Se os pais não mostrarem aos filhos a importância do esforço, a paciência e a tolerância diante de suas próprias frustrações educarão crianças insatisfeitas e incapazes de avaliar os aspectos positivos das coisas.

Assim, incentivar a autonomia da criança, para que ela aprenda a satisfazer por si mesma suas próprias necessidades é a única maneira de ela se sentir segura e confiar nas suas capacidades.

Também, incrementar momentos de criatividade, imaginação e espontaneidade estimula a criança a aprender a desenvolver seus próprios interesses em contextos mais abertos, nos quais poderá experimentar formas diferentes, pessoais e únicas de fazer as coisas.

Premiando o esforço da criança nas primeiras etapas será muito importante porque, se a ela ensinarmos a valorizar o esforço, estaremos conseguindo que ela se motive a alcançar as próprias metas.

Enfim, é necessário conseguirmos que a criança se adapte às normas culturais socialmente estabelecidas, mas respeitando sua individualidade para que possa confiar nas suas próprias capacidades e se sinta satisfeita com suas conquistas.

Marcia Amaral
Psicopedagoga

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